O enredado, no samba-enredo

Recorte da obra: "La famille de saltimbanques" (1905), de Pablo Picasso (1881-1973).

Não há liberdade se o poder de julgar não estiver separado do poder legislativo e do executivo.
Montesquieu (1689-1755)



Foi complicado assistir pela TV ao desfile da Escola de Samba que homenageou Lula na Sapucaí. Qual era, mesmo, o canal da Globo? Minha mulher — graças a Deus! — também não fazia a menor ideia. Há tantos anos não sintonizávamos essa emissora que precisei sair atrás, de canal em canal. Quando pensei ter encontrado, percebi, instantes depois, que estava na tal Globo News. Continuei buscando no sentido decrescente até topar com a RBSTV em rede com a Globo na transmissão.

Não vou analisar a letra do samba-enredo homenageando o enredado presidente. Aliás, samba-enredo de homenagem a Lula é piada pronta. Foi como ouvir discursos de petistas numa sessão da Câmara dos Deputados. Muito barulho de prato e pouca comida.

A sete meses da eleição, com um ilícito eleitoral em cada verso e em cada alegoria para o mundo assistir ao vivo, a inusitada homenagem concede ao TSE tempo para julgar o assunto quando for mais oportuno. E aí se instala uma situação cada vez mais comum em nossos tribunais superiores: oportuno para quem? Infelizmente, todos sabemos a resposta. Na corte onde missões dadas são cumpridas e onde os manés perderam, questões de natureza política ou com reflexos políticos têm sido decididas conforme as cortes considerem melhor para si mesmas. E isso pode representar, no caso do showmício da Sapucaí, desde uma tênue multa até uma prolongada inelegibilidade.

Num Estado de Direito, a lei se impõe igualmente a todos. Quando a Justiça faz política, é seu querer que se impõe a todos.


Por Percival Puggina.
Publicado no website do autor, em 17 de fevereiro de 2026.


Nota da editoria:

A imagem da capa é um recorte da obra: “La famille de saltimbanques” (1905), de Pablo Picasso (1881-1973).

Sobre o quadro e nossa escolha: retrata uma família de artistas de circo em uma paisagem árida, silenciosa e melancólica. Embora associados ao riso e ao espetáculo, os personagens aparecem introspectivos, quase deslocados do mundo ao redor. Os saltimbancos eram considerados a classe mais inferior dentre os acrobatas, artistas itinerantes que viviam à margem. Nós consideramos que o contraste entre a ideia de festa e o cenário desolado sugere um carnaval esvaziado, em que o “brilho do espetáculo” encobre um fundo mais duro e inquietante.



Registros visuais


Acadêmicos de Niterói 2026 - Rio de Janeiro, RJ .
Acadêmicos de Niterói 2026 - Rio de Janeiro, RJ .
Acadêmicos de Niterói 2026 - Rio de Janeiro, RJ .
Acadêmicos de Niterói 2026 - Rio de Janeiro, RJ .
Acadêmicos de Niterói 2026 - Rio de Janeiro, RJ .
Acadêmicos de Niterói 2026 - Rio de Janeiro, RJ .
Acadêmicos de Niterói 2026 - Rio de Janeiro, RJ .
Acadêmicos de Niterói 2026 - Rio de Janeiro, RJ .
Acadêmicos de Niterói 2026 - Rio de Janeiro, RJ .
Lula e Wallace a direita.

A escola de samba Acadêmicos de Niterói, do Rio de Janeiro, prestou culto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva na noite de 15 de fevereiro de 2026. Entre as alegorias, representou a “família” em latas de conserva, nas quais figuravam evangélicos, militares e mulheres brancas. Como revelam as imagens, o desfile também promoveu ataques explícitos ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Vale mencionar que, em 15 de dezembro de 2025, o Ministério da Cultura autorizou a Acadêmicos de Niterói a captar R$ 5,1 milhões por meio da Lei Rouanet. A foto com a bandeira da escola foi tirada em Brasília, quando Lula recebeu a camisa oficial da agremiação das mãos do presidente Wallace Palhares, réu em processo que apura a morte de Raquel Antunes, de 11 anos, ocorrida durante o Carnaval de 2022.




Consideração adicional


Regimes ditatoriais frequentemente recorrem a desfiles públicos como instrumento de exaltação do líder e de demonstração simbólica de poder. Esses eventos não são meras celebrações cívicas: constituem encenações políticas cuidadosamente planejadas, nas quais estética, disciplina e monumentalidade se combinam para produzir impacto psicológico e reforçar a autoridade do regime. Alguns exemplos emblemáticos ilustram essa prática:

  • Adolf Hitler — Desfiles de Nuremberg
    Organizados anualmente pelo regime nazista na cidade de Nuremberg, os chamados Reichsparteitag (Congressos do Partido) eram espetáculos meticulosamente coreografados. Milhares de soldados marchavam em perfeita simetria, cercados por bandeiras, tochas e arquitetura monumental. Discursos inflamados reforçavam o culto ao Führer, enquanto a grandiosidade visual transmitia uma ideia de ordem absoluta e unanimidade nacional.
  • Kim Il-sung e sucessores — Desfiles em Pyongyang
    Na capital Pyongyang, especialmente na Praça Kim Il-sung, realizam-se imponentes desfiles militares. Destacam-se a exibição de mísseis balísticos, as coreografias humanas em massa e os retratos monumentais do líder. O espetáculo visual reforça a narrativa de unidade nacional e poderio militar sob a liderança suprema.
  • Benito Mussolini — Desfiles em Roma
    Na Roma, o regime fascista promovia desfiles cuja estética evocava símbolos do Império Romano. A encenação combinava a memória de um passado glorioso com a afirmação do poder contemporâneo, sugerindo continuidade histórica e legitimidade política.
  • Joseph Stalin — Paradas na Praça Vermelha
    Na Praça Vermelha, em Moscou, as paradas militares celebravam o Exército Vermelho e consolidavam a imagem de Stalin como líder incontestável da nação soviética. A exibição de armamentos pesados simbolizava tanto a força interna quanto a capacidade de dissuasão externa.

Objetivos comuns desses desfiles:

  • Projetar o líder como centro simbólico da nação;
  • Criar a sensação de unanimidade e coesão social;
  • Produzir a impressão de apoio total por meio de multidões disciplinadas e coreografadas;
  • Reforçar o poder político através da estética monumental;
  • Demonstrar força militar com a exibição pública de tanques, mísseis e tropas.

Em todos esses casos, o desfile funciona como uma forma de linguagem política visual: transforma poder em espetáculo e autoridade em imagem.

Por fim, a instrumentalização estética do espaço público não se limitou aos desfiles militares: regimes como os de Adolf Hitler e Benito Mussolini também intervieram em festas populares europeias, como o carnaval, influenciando, direta ou indiretamente, o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Para aprofundamento, leia O lado oculto do carnaval.




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